JASPION - SÉRIE EM 46 CAPÍTULOS - TOEI COMPANY, JAPÃO 1985 (VERSÃO BRASILEIRA ÁLAMO)Fracasso no Japão, febre no Brasil até hoje, Jaspion é uma das séries japonesas mais famosas no mundo, e certamente a que mais merece uma análise. Existem vários motivos para apontarmos sua posição diferenciada entre as demais, mas o que mais conta, no final, é o da lição de moralidade, já que muitos hoje em dia estão bastante equivocados sobre o que é isso, exatamente.
Atualização: Mesmo produzido em 1985, Jaspion é a série japonesa (ou Tokusatsu) que melhor venceu o desgaste natural que os anos impõem à qualquer coisa. Em Changeman, por exemplo, as cores excessivamente saturadas denunciam como esta é uma série já ultrapassada, pelo menos visualmente. Em Jiraya e Machineman, apesar da intensa beleza de seus uniformes de combate, reparamos imediatamente nos traços retangulares das linhas do busto.
Jaspion fez o que pode para vencer o tempo, e vem entrando na década de 10 espantosamente atualizado. Seu herói logo cedo alisa o cabelo e ganha um automóvel com retrovisores na porta do veículo, ao contrário de muitos carros japoneses da época, que os possuíam no capô. Em cada episódio vemos computadores e avançados radares e sensores. Pareceu-me pouco ultrapassado apenas a abertura dos episódios e a calça branca do herói, muito colada no corpo, porém estes fatores não são decisivos para o desenrolar do seriado.
Perversidade dos vilões: Jaspion é possivelmente o Tokusatsu pioneiro em apresentar vilões de perversidade absoluta. Desde o primeiro capítulo, eles são apresentados como demônios, e personificam uma extensão do inferno em escala espacial. Os monstros possuem fisionomias incrivelmente aterrorizantes. Cospem fogo, laser, gases venenosos, e têm um tamanho incalculável. Apenas um pé do monstro equivale à extensão geral de uma montanha. É visível o esforço de toda a sociedade do mal para destruir Jaspion, sendo que guerreiros espacias com as mais diversas habilidades traiçoeiras são convocados constantemente.
Séries anteriores à Jaspion sempre contaram com vilões atrapalhados, com um fundo cômico, que tropeçam sozinhos, que carregam fraquezas bobas. Em Machineman, o velho professor K espirra descontrolado de alergia à crianças enquanto pinta quadros. Em Changeman, o monstrengo Gaata é baixo, verde, gorducho e com uma voz de personagem de desenho animado (na versão brasileira dublada por Borges de Barros). Em Goggle Five, os soldados Madaraman da Destopia chegam a protagonizar vez ou outra uma dancinha oriental por ordem da Goggle Pink.A história: Jaspion é um órfão espacial criado pelo profeta Edin, estudioso das leis da Bíblia Galáctica. Ele cria o menino para ser o grande guerreiro que viajará pelo universo para derrotar o mal. A liderança deste cabe à Satan Goss, um ser imenso que é síntese de toda a negatividade cósmica, e que desperta de um sono secular e escolhe a Terra para criar o Império dos Monstros com a ajuda de seu filho McGaren.
No início Jaspion combate "apenas" monstros gigantes enfurecidos, vencendo-os com a sua nave convertida no robô Gigante Guerreiro Daileon. Derrotados constantemente, McGaren e seu pai buscam auxílio em temíveis vilões de outros planetas. Esses vilões, além de poderosas armas, carregam técnicas como transformarem-se ou ficarem invisíveis, dependendo da capacidade de cada um. Ao tomar conhecimento do que diz a escritura galáctica, Jaspion prescisa resolver o enigma do pássaro dourado, que é, segundo Edin, a peça fundamental para a sua vitória.
Impressões: Eu também fui um grande fã de Jaspion na infância, mas revendo a série inteira hoje, a impressão que tive é de que ela carrega grande moralidade, afinal, muitos de nós hoje em dia prescisamos ser guerreiros do nosso tempo. Reparei que os vilões de McGaren infiltravam-se entre os humanos comuns sempre bem vestidos, com educação e simpatia, antes de revelarem suas verdadeiras intenções. Enganavam muita gente e maquinavam sempre a partir do subsolo terrestre. Mas também reparei na grande coragem de Jaspion para enfrentar sozinho e com grande disposição todas as dificuldades. Ele se metia em qualquer ação de seus inimigos, não ignorava nada que eles fizessem, nunca, surgindo de repente com o Gaibin Tanque ou com a Allan Moto Space, descarregando eletrizantes rajadas de laser. E nunca media esforços.Simbologia: Infelizmente não são todos como Jaspion, que têm coragem de se meter no alheio para destruir o mal, ou pelo menos para enfrentar seus monstros gigantes sozinhos. Sem falar que muitos, certamente, estão infiltrados entre os bons, com o seu visual impecável, acima de qualquer suspeita, enquanto camuflam suas reais e obscuras intenções.
É fato que desde sempre prescisamos uns dos outros, e a união só traz benefícios para o mundo. Mas não deixaria de ser nobre encontrarmos alguém com a coragem de Jaspion, que como eu disse, assumiu toda a bagagem sozinho. Em tempos atuais, é lamentável que uma grande parcela (e cada vez maior) de pessoas recorra à idiotice pseudo-paranóica que é a auto-ajuda, tese absurda que aponta sentimentos inexistentes, fúteis, típico caso da emoção agindo acima da razão, e a meu ver mais próxima da paranóia depressiva do que de qualquer outra coisa, visto que em muitos casos o indivíduo apóia-se em ideologias de otimismo ilógico e incompatível com a nossa sociedade, gerando posterior insatisfação e frustração, além da construção de uma auto-estima irreal na essência e na expectativa.
Parece surpreendente, mas muito mais próximo da nossa realidade está a moral extraída de Jaspion, que é um trabalho ficcional, mas cuja reflexão garante um raciocínio muito mais sadio porque tem pleno êxito em demonstrar o reflexo da vida de um ser humano. A face aterrorizadora dos monstros pode bem ser considerada uma visão dos autores sobre as grandes (daí o tamanho astronômico) dificuldades enfrentadas pelo Japão, como as catástrofes de Hiroshima e os problemas políticos com potências militares. Como sabemos, o Japão enfrentou tais dificuldades como poucos países do mundo, mas superou-as (e ainda as supera) como nenhum outro.
O vídeo: Este vídeo é o trecho final do episódio 26, um dos que mais me impressionaram. Aqui, o robô Daileon recupera a energia antes sugada pelo monstro Bogan, que possui essa capacidade peculiar, e o derrota. Na sequência, ao som da melhor música de toda a série, Jaspion enfrenta o último dos irmãos Gasami. Repare no momento em que os adversários apenas se observam, a uma distância de cerca de cinco ou seis metros. Possivelmente é este o ápice da luta, pois com isso o grau da rivalidade é posto em questão, e que é, a meu ver, mais decisivo do que qualquer golpe fatal.
Emocionante também o poder de destruição da espada Cosmic Laser. Ao atingir o corpo do inimigo, a Cosmic Laser libera uma energia que entra em combustão, causando grande explosão após alguns segundos.
A música: Música japonesa é frequentemente carregada de uma melancolia quase fatalista. Mas, obviamente, não a dos Tokusatsu, que devem inspirar determinação e heroísmo. A segunda música presente no trecho que eu inseri aqui (e que toca durante o embate de Jaspion com o último Gasami) é a minha favorita. Já no contexto geral, a música de Jaspion têm uma construção menos rica que a de muitos outros Tokusatsu com contexto similar. Na minha opinião a melhor musicalidade do gênero está em Goggle Five, desde a abertura até o encerramento, passando pela magistral coreografia de apresentação dos heróis. A abertura de Machineman também é de primeira linha. No entanto, muito da música de Jaspion é claramente superior à aquelas encontradas nas aberturas de Changeman e Jiraya. Assim como nas novelas, existem até temas próprios, como uma faixa específica para as aparições do Gigante Daileon, o que comprova que, de qualquer maneira, a trilha sonora foi uma preocupação bem observada pelos produtores.

O apelo: Quem nunca viu, veja. Quem já viu, veja de novo. Mas que cada um tire suas próprias conclusões, baseadas no seu próprio conceito de moralidade.
Agradecimentos: Vou aqui agradecer todo o pessoal da palestra que participei em Yokohama, com o tema "Jaspion e a moralidade", além do meu novo amigo Akio Kimura, do blog akimura.zip.net (visitem!!!!), que contribuiu com uma importante visão para este texto. Muito obrigado!
0 comentários:
Postar um comentário