quarta-feira, 22 de julho de 2009

Hadashi no Gen

Em quatro volumes, Hadashi no Gen, que no Brasil foi traduzido para Gen Pés Descalços é um dos mangás de maior importância histórica para os dias de hoje. Escrito por Keiji Nakazawa, narra nada menos do que as peculiaridades de quem vivenciou o antes e o depois da bomba atômica em Hiroshima. Na visão especial de um sobrevivente, Nakazawa disse ter usado o menino Gen, protagonista da história, como o seu alter-ego, para assim expor de uma forma mais direta ao público como foi e o que era, exatamente, viver naquele estado de penúria que a Segunda Guerra Mundial trouxe para o Japão.
O mangá mostra, sem nenhum sinal de enrolação ao leitor, a saga do menino Gen antes e depois da Guerra no Japão, contra os inimigos Grã-Bretanha, EUA e Rússia. O pai de Gen, servidor do exército, é acusado de traidor pela sua opinião contra a guerra, chegando a ser preso e torturado. Os irmãos dividem-se melancolicamente: um vai ao campo de batalha, um outro foge com os grupos de evacuação para regiões livres dos cada vez mais constantes ataques aéreos, que enclausurava as pessoas em suas próprias casas e em abrigos. A mãe, como única sobrevivente da família após a bomba, desdobra-se para o sustento do filho Gen, do recém-nascido nas ruínas e de si própria. O próprio Gen, ainda bastante garoto, procura trabalho, e acaba cuidando de uma vítima da bomba. Com isso, consegue despertar consciência e esperança no doente.
É impressionante perceber através das páginas de Gen o quanto a Guerra contaminou o orgulho dos governantes japoneses, que só cantavam vitória a todo instante ("o Japão vencerá porque é um país sagrado"; ou "os inimigos ingleses e americanos são demônios" são algumas das frases do mangá), e ainda faziam vistas grossas à sua própria gente, classificando qualquer ato suspeito como traição ao Imperador. Apenas as famílias mais abastadas podiam comer o alimento mais sofisticado da época da guerra: arroz. Mesmo assim, há cenas comoventes que relatam desde uma humilhação gratuita até uma disputa de sangue por uma batata.


Com a experiência que só uma pessoa experimentada pode ter, Nakazawa consegue conduzir a história de um modo talvez impossível para um ocidental, já que chega mesmo a bons momentos de humor ante toda a tragédia, incluída aí a situação de muitas vítimas da bomba, caminhando sem rumo ante ruínas, com a pele do corpo derretida. Outro mérito de Nakazawa é o reconhecimento de que a situação é irreversível, portanto procura com isso fazer o leitor crer na esperança à todo custo, do próximo ou dele mesmo.
Gen deve ser, por consenso, o melhor retrato do fim da Segunda Guerra, escrito meio século depois. Seus contos diversos, narrados nas entrelinhas, mostram a Hiroshima que nenhum ocidental poderia imaginar, por mais sonhador que fosse. E o poder dessa reflexão encontra-se nos detalhes: uma população que só acha consolo num bebê. Um homem abandonado dentro da própria casa pela família que inoja sua situação, como um ser em decomposição. Um soldado americano que tenta comprar afeição de crianças com gomas de mascar, algo que elas nunca viram até então. Ou ainda uma garota que sonha ter preservado intacta sua face para um dia poder realizar o sonho de ser bailarina. Na versão brasileira, o mangá ainda foi editado no sistema ocidental de quadrinhos, o que é um convite àqueles enjoados que não apreciam ler da direta para a esquerda.


Leitura obrigatória para todos, mostra o Japão alucinado do início da Era Showa, e serve principalmente para reconhecermos o Japão sereno de hoje. Um país que tanto soube perdoar a ponto de considerar seus algozes atuais aliados. E soube perdoar até quem lhes mostrou a maior destruição já causada por uma guerra na história do mundo.

1 comentários:

akio disse...

Nico, belo comentário. Você está expert demonstrando a sua força nas pesquisas. Nunca tinha visto esse personagem GEN e pelo visto, o autor Nakazawa é um grande analista expondo as consequências de uma guerra sobre seres humanos.
Parabéns por ter garimpado esse tesouro.
Abraço
Akio