DOLLS (Japão, 2002). Direção: Takeshi Kitano. Com: Miho Kanno, Hidetoshi Nishijima, Kyoko Fukada.Ontem eu assisti Dolls, filme que eu queria há tempos assistir, desde que tive contato com a ótima trilha sonora, em meados de 2004. O enredo é fortemente baseado no tradicionalíssimo teatro Bunraku japonês, uma das formas de dramaturgia mais antigas que ainda existem nos dias de hoje.
O diretor Takeshi Kitano obteve raro sucesso em relacionar os bonecos do teatro e suas máscaras com os seus personagens, como se cada um fosse assim eles próprios os bonecos. A história está dividida em três focos. No primeiro, a garota Sawako tenta se matar quando o noivo Matsumoto cede a uma vontade do pai, em casar-se com a filha de um importante empresário. Ao saber que Sawako tinha sido internada num sanatório com lesões na consciência, Matsumoto abandona a cerimônia e passa a cuidar da garota que realmente ama. Com uma corda amarrada na cintura de ambos, percorrem cenários impressionantes, sem um rumo definido.
Essa primeira história será visivelmente a mais trabalhada, até mesmo porque é ligada diretamante com o teatro apresentado nos primeiros minutos do filme. Porém, as outras duas paralelas coexistem sem nenhum traço de estarem sobrecarregando o enredo. Numa, a namorada espera há anos o retorno do namorado para o almoço de sábado, indo toda semana ao parque com a marmita e reservando-lhe o lado num banco de jardim, onde existe uma surpresa que é reservada só para o espectador. Na outra, um fã incondicional de uma pop-star (uma das manias no Japão moderno) está com várias fotos da cantora na sua frente, quando resolve que o rosto dela é a última coisa que deseja ver. Assim sendo, ele trata de se cegar com um estilete.
Trabalho puramente moderno, o filme de Kitano pode ser facilmente comparado com uma composição musical de primeira linha, onde a transformação guia o desenvolvimento. Há tempos não me dava tanta satisfação em assistir a um filme, e para mim ficou a impressão de que o cinema japonês é atualmente um dos mais artisticamente modernos do mundo.O final de Dolls é exatamente como o final de uma composição moderna. Na música, antes tinhamos uma conclusão muitas vezes brilhante, em fortíssimo, e sempre com um acorde envolvendo as notas básicas usadas na mesma (o que se chama de dominante). Isso pode ser puramente comparado àqueles finais de filmes em que queremos ver (e vemos) o que acontece com os personagens principais do filme, ou seja, aqueles que, tal como as notas básicas da música, foram os mais recorrentes ao longo da película, os personagens "dominantes".
Mas nesse caso, vejam bem, a arte moderna dá o tom da vez. Se escutarmos uma peça de música do gênero, como por exemplo a Sonata 5 de Scriabin ou o "Scarbo" de Ravel, veremos que os seus finais não são uma conclusão derradeira, e sim apenas uma etapa a mais de uma série de transformações sonoras. Vejo isso como uma vantagem enorme, porque a música jamais irá acabar. Ela segue agora em silêncio, mas segue. O mesmo acontece no final de Dolls, sem exceções: o que acontecerá no final será só mais uma etapa na saga dos personagens. E que delícia de final! Tal como em muitas de minhas composições favoritas: súbito e que nos pega de surpresa. O filme não se conclui, porque quer continuar na imaginação de cada um. Ou seja: se a música moderna usa o silêncio como uma de suas ferramentas básicas, o mesmo faz Dolls, que só existe enquanto houver a imaginação daquele que o assiste.Quem quiser assistir Dolls na íntegra, visite minha página pessoal no You Tube. Lá tem o filme completo, basta acessar o campo "Listas de Reprodução". Não percam!!
2 comentários:
Nico, cheguei na parte da tentativa de autoenforcamento em que Sawako amarra uma corda no banco do carro. Ela parece decidida a morrer, mas aquele lance de equilbrar a bolinha com aprelho de sopro traz uma esperança.
Hoje, vou assistir a outro bloco.
Abraço
Akio
Nico, enganei-me. Não é tentativa de enforcamento. Ela amarrou na parte da cintura, o que significa que ela queria retomar o caminho que ela havia percorrido no passado até chegar no desfiladeiro. Mas não caem. Talvez encontrem alí uma resposta do destino. O filme tem até delicadeza na violência. O mafioso quando é vitimado por um tiro, não mostra sangue, mostra uma folha vermelha de outono. O chapéu que cai do penhasco parece dizer que não há volta.
Gostei do seu comentário. Apenas lamento de não ter assistido numa tela de tv.
Abraço
Akio
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